terça-feira, 22 de abril de 2008

A CHEGADA DE D. JOÃO NO TESTEMUNHO DO PADRE PERERECA.

É o relato mais minucioso e preciso da chegada da família real, feito por uma testemunha ocular e idônea que gostava de detalhes e que os sabia descrever de forma muito realista. O padre Luís Gonçalves dos Santos – Padre Perereca – chega em sua resenha descritiva a nos passar a emoção que sentiu quando do desembarque, transportando-nos vivamente ao momento ocorrido há duzentos anos atrás.
“Finalmente amanheceu o suspirado dia 8 de março, tão claro, e formoso como o antecedente: e, estando as coisas dispostas para a recepção de Suas Altezas, pelas quatro horas da mais bela, e serena tarde, por entre repetidas e alegres salvas das naus portuguesas, e inglesas, e por entre vivas, que os respectivos marinheiros, postos em parada sobre as vergas, davam em altos gritos, desceu o Príncipe Regente Nosso Senhor da nau Príncipe Real, que o conduzira, e se meteu no bergantim com a sereníssima senhora princesa do Brasil, e com os sereníssimos senhores príncipe da Beira, infantes, e infantas; e acompanhado de toda a Corte, com que saíra de Lisboa, e de entre outras personagens distintas, que de terra o foram buscar a bordo, ou que das naus desembarcaram, (o que tudo fazia uma comitiva muito numerosa, e brilhante de escaleres, lanchas, e outras embarcações menores) se dirigiu para a cidade em direitura do lugar de desembarque. Todo o imenso povo, que bordava o cais, e as praias vizinhas, estava, como extático, com os olhos fixos no real bergantim, e no maior silêncio; mas logo que o mesmo real bergantim passava pela frente da Fortaleza da Ilha das Cobras, e que esta começou a saldar com a sua artilharia a Sua Alteza Real, no que foi imitada pelas demais fortalezas, imediatamente rompeu o povo, que estava sobre o Monte do Castelo, em altos vivas, acompanhados dos repiques dos sinos do Colégio, e de muitos fogos do ar, que dali se soltaram: entretanto chegou o real bergantim à rampa do cais, e logo que o Príncipe Regente Nosso Senhor pôs o pé em terra: Ah! Como poderei descrever o que tive a fortuna de testemunhar neste ditoso momento? Centenas de fogos subiram ao mesmo tempo ao ar: rompeu imediatamente um clamor de vivas sobre vivas; os alegres repiques dos sinos, e os sons dos tambores, e dos instrumentos músicos, misturados com o estrondo das salvas, estrépito dos foguetes, e aplausos do povo, faziam uma estrondosa confusão tão magnífica, majestosa, e arrebatadora, que parecia coisa sobrenatural, e maravilhosa. No meio desta assombrosa confusão de tantos, e tão multiplicados sons diferentes desembarcaram todas as pessoas reais; e juntamente com o Príncipe Regente Nosso Senhor se prostraram diante de um rico altar, que na parte superior da rampa estava ereto, em torno do qual se achava o cabido da Catedral paramentado de pluviais de seda de ouro branca; e ali osculou Sua Alteza Real a Santa Cruz nas mãos do reverendíssimo chantre Filipe Pinto da Cunha e Sousa, e o mesmo fizeram todas as pessoas reais; mas antes dessa ação o mesmo reverendíssimo chantre havia feito a aspersão de água benta, e dado as turificações ao Príncipe Regente Nosso Senhor, e à real família. Levantando-se Sua Alteza, o Príncipe Regente Nosso Senhor, com a sereníssima senhora princesa, e a sua augusta família, se recolheram debaixo de um precioso pálio de seda de ouro encarnada, cujas varas eram sustentadas pelo juiz de fora, presidente do Senado da Câmara, Agostinho Petra de Bethencourt, pelos vereadores, Manuel José da Costa, Francisco Xavier Pires, Manuel Pinheiro Guimarães; procurador, José Luís Álvares; escrivão, Antônio Martins Brito, e cidadãos, Anacleto Elias da Fonseca, e Amaro Velho da Silva, os quais ambos, havendo sido vereadores, foram convidados para esta ação, que tanto honrou a todos”.
Vale lembrar que esse rico pálio, muito bem citado pelo Padre Perereca, bem como por outros cronistas, existe até hoje e permanece como único objeto desse faustoso dia ainda sobrevivente, guardado e exposto no Museu Histórico da Cidade, no Parque da Gávea.
Milton de Mendonça Teixeira.

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