terça-feira, 22 de abril de 2008



“MENTIRAS CARIOCAS”
Duas boas mentiras extraídas de nossa história, ambas ocorridas no período joanino, tão na moda.

D. JOÃO E O MOSTEIRO DE SÃO BENTO
Quando a Côrte portuguesa desembarcou no Rio de Janeiro a 8 de março de 1808, não existia em nossa cidade acomodações para tantas pessoas e de tão elevada categoria. D. João e parte de sua família estabeleceram-se no Paço. Sua mãe, a Rainha D. Maria, ficou acomodada no Convento do Carmo, alguns metros adiante. Os serviçais diretos do Príncipe ficaram na cadeia velha, ao lado do Paço, local onde hoje está o Palácio Tiradentes. Mas as centenas de famílias nobres portuguesas restantes tiveram de se acomodar como puderam. Invocaram então a chamada “Lei das Aposentadorias”, que garantia aos servidores do Estado aposentos dignos após certo tempo de serviço prestado. Foram assim desapropriadas dúzias de residências, bastando o cortesão assim a requisitar a um juiz. Êste, mandava um meirinho à casa do infeliz proprietário, comunicava-o da decisão e o morador devia então abandonar a propriedade em 24 horas. O meirinho escrevia à giz na porta as iniciais P. R., as quais o povo interpretava como “Ponha-se n Rua” ou “Prédio Roubado”.
D. João, por sua vez, sentia-se incomodado no Paço, muito próximo da rua, sem jardins e de salas acanhadas, impróprias a um Príncipe de Sangue Real. Foi por essa época que alguns cortesãos lhe segredaram das ótimas instalações do Mosteiro de São Bento, amplas e bem situadas. Um mês apenas no Rio de Janeiro, D. João marcou visita ao velho cenóbio beneditino, tendo assistido missa cantada na capela de Montserrat pelo coro dos monges e sendo pajeado na visita às instalações pelo abade prior D. João de Deus, que logo desconfiou das segundas intenções da Real Visita.
Depois de percorrer o monastério e ter recebido do prior as informações sobre o prédio e suas obras de arte, o Príncipe encetou logo uma conversa dizendo com fingida displicência:
“Que bela vista e temperatura agradável se goza aqui. Êste edifício é digno de uma residência real”.
O abade João, mais ladino ainda que o Príncipe, percebeu logo onde ele queria chegar e respondeu com a maior presteza:
“Realmente, mas acontece que este lugar é muito perigoso porque estamos expostos ao ataque de qualquer navio inimigo que entre na baía. Já fomos bombardeados pelo Sr. Duguay Trouin”.
D. João não se perturbou e respondeu:
“Ora, isso não acontece todos os dias e haveria tempo de sair antes do bombardeio”.
O abade não perdeu as estribeiras. Ele sabia que D. João tinha um pavor louco de trovoadas e raios: replicou:
“Saiba Vossa Alteza que há um inconveniente mais grave; quando arrebenta uma tempestade do norte, o vento e os raios não nos poupam; já caíram vários raios aqui”.
D. João não se deu ainda por vencido e respondeu:
“Não há tormentas todos os dias e invocando Santa Bárbara estaremos protegidos”.
O abade, porém, era mais teimoso e lutava heroicamente por uma causa justa qual fosse a defesa do seu sossego e da sua habitação. Lançou a última cartada, sabendo que Deus, com certeza, o perdoaria daquela pêta:
“Sou obrigado a dizer toda a verdade a Vossa Alteza; acontece que já sentimos alguns tremorzinhos de terra, que cada vez vão aumentando de intensidade. Todos os dias rogamos a Deus para que não soframos a mesma desgraça que ocorreu com o terremoto de Lisboa em 1755”.
Essa era forte de mais; convenceu D. João que, aterrado, acabou dizendo:
“Bem, bem, não se fala mais nisso”.
Algum tempo depois, D. João recebeu de presente dos monges beneditinos sua fazenda de recreio, ao lado da Igreja de São Sebastião, nas Flecheiras, Ilha do Governador; a qual o príncipe muito agradeceu e passou a usar como casa-de-campo. D. João, por sua vez, se ressentiu do espírito forte do abade prior e ainda em 1808 mandou acomodar no Mosteiro de São Bento dois batalhões de Cavalaria do Exército; sendo que, após a Independência, em 1824, o Imperador D. Pedro I colocou mais dois batalhões acantonados no velho cenóbio. Somente em 1842 foram retiradas todas as tropas e os monges recuperaram seu mosteiro, passando os anos seguintes a restaurar o que os soldados quebraram ou roubaram.
D. João, por sua vez, recebeu a 1º. de janeiro de 1809 a doação da Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, dádiva preciosa do comerciante Elias Antônio Lopes. O Príncipe passou a lá residir, o mesmo fazendo seu filho e neto até 1889.

O CONTO DO VIGÁRIO.
Corria o ano de 1814 quando, em pleno Rio de Janeiro joanino, desembarcou no Largo do Paço, vindo de Portugal, o cidadão lisboeta Antônio Theodoro. De ótima aparência e muito bem trajado, demonstrando finos modos, este senhor, ao se hospedar, identificou-se com seu nome apondo o título de Visconde de Vila Nova. O estalajadeiro, embevecido de abrigar tão importante personagem, não se furtou a fazer algumas perguntas. Informou então o “Visconde” que era parente do Ministro das Finanças do Reino e confidente de D. João, Thomás Antônio de Vila Nova Portugal, então no poder e, não por acaso, gozando os favores do Príncipe Regente como seu conselheiro pessoal.
A conversa melhor ficaria para depois. Estando já o Visconde de Vila Nova estabelecido no melhor quarto da casa, e servindo-se de três refeições diárias, viveu sendo bem tratado; até que, alguns dias após, em tom muito confidencial, revelou ao estalajadeiro que tivera de fugir de Portugal às pressas, pois estava ameaçado de morte por alguns familiares. Inquirido sobre tão grande problema, o Visconde confessou que se tornara herdeiro único de imensa fortuna deixada por um tio, vigário de uma paróquia alentejana. O tio, ao assim proceder deserdando outros parentes, inquiriu no ódio dos outros familiares contra Antônio Theodoro, que, temendo por sua vida, entregou os detalhes da herança para serem arrumados por um advogado procurador, e viajou para o Rio de Janeiro com o fito de se sentir mais seguro, até a questão da fortuna serenar.
A notícia rapidamente se espalhou, pois o estalajadeiro não guardou segredo algum e, em poucos dias, toda uma nata de fidalgos bateu à porta da estalagem para convidar o Visconde a almoços e jantares nas melhores casas da cidade. Logo se estabeleceu numa mansão, cedida por um nobre, onde passou a ter criados e comer à tripa forra, dando, inclusive, recepções. Não poucas famílias foram lhe obsequiar com presentes, e o Visconde de Vila Nova chegou até a namorar algumas das moças mais importantes do Rio de Janeiro.
Passados alguns meses, Antônio Theodoro revelou a alguns amigos fidalgos que estava passando necessidades, pois o testamento estava sofrendo embargos por parte da família, ao mesmo tempo em que o procurador não demonstrava ter o talento e a rapidez que se apregoava possuir. Nem precisou pedir: logo as melhores bolsas da cidade se abriram para emprestar-lhe dinheiro, mesmo tendo o Visconde inicialmente recusado receber qualquer ajuda, só o aceitando depois de muita insistência. E assim viveu Antônio Theodoro por um ano e picos, tomando dinheiro emprestado de negociantes e investidores. E talvez vivesse assim muito tempo mais, se não incorresse na desconfiança do Intendente de Polícia Paulo Fernandes Viana.
O Intendente começou a desconfiar do Visconde, haja vista que, em um ano, esse nobre em nenhum momento se apresentou ao Príncipe Regente, como era de praxe, muito menos ao poderoso ministro, seu parente. Além do que, numa entrevista fortuita, Paulo Fernandes conversou com o Ministro Vila Nova Portugal, e este alegou desconhecer o tal parente herdeiro. O Intendente solicitou que o Major Miguel Nunes Vidigal escrevesse algumas cartas para o Reino, em especial para a família Vila Nova, a qual ele afirmava pertencer.
Com um pouco de trabalho, se descobriu a verdade. Antônio Theodoro era apenas um aventureiro, reles caixeiro de uma loja vulgar da rua do Ouro, em Lisboa. Não tinha tio vigário algum, não herdara nada e muito menos pertencia à família Vila Nova e, claro, jamais tivera o título de Visconde.
Foi preso e enviado ao aljube da cidade. Verdadeiro escândalo. Um Deus-nos-acuda. Muitos comerciantes e empresários haviam-lhe emprestado altas somas e agora sabiam que não as receberiam mais. Muitas famílias o receberam em seu meio como um possível e desejável “genro”, tendo o meliante até noivado com respeitável dama. Houve moçoilas apaixonadas que tentaram o suicídio, outras ficaram dias deitadas em rede, sem comer; e uma delas manifestou desejo de entrar para um convento, tal o desgosto que teve.
Não é que houve até quem intercedesse por ele, tal a confiança que passara?
D. João o degredou em 1816 para Angola, com a proibição de voltar ao Brasil ou Portugal.
Daí para diante, casos dessa natureza foram batizados por “contos do Vigário” e tal denominação até hoje perdura.
O episódio mostra como um homem pobre, mas resoluto, com alguma lábia e sabedoria, conseguia levar boa vida graças a uma sociedade reles, como a do período joanino, que julgava os outros pela aparência ou título e não pelo talento.

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